quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Festival do Rio - Scott Pilgrim contra o Mundo

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Levou um certo período de tempo após o anúncio da adaptação da HQ de Scott Pilgrim contra o Mundo até que eu me empolgasse com o projeto. Na verdade, um grande período de tempo. Pra mim o longa soava como um Kick Ass 2.0, talvez um pouco menos pobre, uma típica Michael Cera being Michael Cera flick. Até que certo dia o Vidoni abriu meus olhos ao atentar que o diretor do filme não era ninguém menos do que Edgar Wright.

Diretor de dois dos melhores filmes de comédia da década (Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso) e atualmente sendo copiado pelo diretor de Zumbilândia, que começou com uma comédia zumbi e está partindo para uma sátira policial, eu não conseguia pensar em ninguém mais cool para dirigir o filme. E aí, aliado a um trailer fodaço de deixar qualquer nerd no mínimo nostalgico, criou-se uma expectativa. E uma grande.

Resumindo, Scott Pilgrim contra o Mundo é exatamente tudo o que esperávamos. A surpresa? Isso não é uma notícia boa.

Antes de jogar o seu atari ou seus action figures na minha testa, acalme-se, o resultado final fica longe de ser um filme ruim, aliás, é o segundo melhor que vi no festival (perdendo só para Machete). A profusão de piadas cheias de referências, desde o logo da Universal com design de fliperama até a deliciosa pergunta feita pelo Scott a um de seus amigos ("Eles realmente filmam longas aqui no Canadá?") por si só já valem o ingresso. Mesma coisa sobre as sequências de lutas, que comprovam o talento que o Wright já havia mostrado em seus filmes anteriores para dirigir cenas de ação. Vale mencionar que toda a estética de video game é refletida na tela com um frescor de um filme que parece ousar muito mais do que na realidade o faz.

Continuando nos prós, e notável a qualidade do roteiro em fazer nos importarmos com os personagens, mesmo em se tratando de um filme exagerado e estilizado como esse, que podia cair em uma grande caricatura, se quiser ser levado mais a sério (coisa que não faz).

Mas aí que entra um certo revés. Ao se estabelecer o arco principal de que o Scott precisa derrotar os sete ex-namorados malignos, o filme em momentos roda em sua própria premissa sem sair do lugar, entregando aquilo que esperávamos, mas só. Apesar de divertidos, alguns dos ex-namorados tem "mortes" um tanto quanto não inspiradas, apenas porque a história tem que continuar para o próximo vilão ser derrotado.

E agora, ao escrever essa minha opinião, não consigo evitar uma certa sensação contraditória: mas não é exatamente isso que um bom video game preza? Diversão descabida fase após fase?

No frigir dos ovos, Scott Pilgrim contra o Mundo continua sendo engraçado, divertido, uma experiência razoavelmente nova em sua estética e inteligente em sua proposta e que vale o ingresso. Talvez derrape um pouco enquanto cinema, mas é por isso que um bom video game sempre tem a tecla reset, não é mesmo?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Festival do Rio - Somewhere

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É uma sinuca de bico assistir um filme como Somewhere, ainda mais em um Festival onde a galere toda também quer ser hype. A única chance de tudo dar certo é se o filme for realmente bom, porque caso contrário, mesmo que você tenha todos os argumentos do mundo, fica aquele julgamento implícito de que a culpa é sua, que não é culto o bastante pro filme.

E talvez até seja, afinal quem sou eu pra discordar dos críticos dos festivais ao redor do mundo, mas para mim Somewhere não funcionou por alguns motivos bem definidos. Deixando claro que antes de mais nada eu sou também um apreciador do trabalho da Coppola (com um carinho por sua atuação em O Poderoso Chefão 3, claro) e gosto de As Virgens Suicidas, acho Lost In Translation um dos grandes filmes da década e me diverti bastante com Maria Antonieta, que teve uma recepção mais ou menos. Somewhere, então, chegou como uma espécie de make it or break it pra Sofia que tem a chance de ser a primeira diretora relevante vencedora de Oscar (porque quem é Kathryn Bigelow na naite, vamos combinar).

E então voltamos aos problemas que eu disse ter encontrado. Tem uma diferença bem grande entre cinema silencioso e existencialista, mas que possuiu um roteiro e um propósito, como Caché ou o próprio Lost In Translation, e o cinema que tenta se dar bem em cima disso, e que ainda joga a provável incompreensão como nossa culpa, e nessa categoria entra um Babel da vida.

Não digo que Somewhere está nessa segunda categoria, até porque isso seria desmerecer demais o trabalho da Coppola que, antes de tudo, continua uma diretora talentosa e relevante. Mas o que é o filme? Solidão, sentido da vida, um homem solitário que percebe na figura de uma filha distante uma possível redenção? Será que já não vimos isso em quase 90% dos filmes do Fox Life? E não só se comparado com outros filmes, mas Somewhere é uma repetição ainda de sua obra mais aclamada, LiT. Tudo o que o mais recente tem de mais interessante, já foi feito no anterior, incluindo nisso a crítica ao mundo do cinema, solitários quartos de hoteís e troque o japonês do filme estrelado por Bill Murray e introduza o italiano que temos uma repetição exata dos protagonistas deslocados em um idioma estrangeiro.

E não se surpreenda se o filme chegar com força ao Oscar do ano que vem, afinal, você tem visto alguma competição até agora? Poderão Black Swan, Never Let me Go ou The Social Network oferecer algum perigo? Verdade é que já vimos muitos diretores sendo premiados por seus piores trabalhos, então só nos resta esperar. Eu, que peguei logo em seguida a sessão de Machete (cuja crítica está aí embaixo) não tive remorso algum ao assistir ao filme do Robert Rodriguez e pensar "isso sim que é sétima arte". E 10 jovens de camisa xadrez ouvindo Belle & Sebastian morrem com essa última frase.

domingo, 3 de outubro de 2010

Festival do Rio - Machete

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Foi logo nos créditos iniciais, quando o rosto da já lendária Lindsay Lohan invadiu a tela empunhando uma arma ou qualquer coisa que você esperaria de um filme como Machete, que uma onda de gritaria irrompeu pela sala de cinema. Foi ali que eu me toquei a diferença que faz ver um filme onde a platéia inteira interage pra tornar a experiência mais memorável.

Por que eu comecei falando isso? Porque depois da sessão de Somewhere (que você verá minha opinião em seguida), e enquanto queimava o carão no meu subway de almôndegas, não conseguia parar de pensar o quão esquisito era essa suposta obrigação, ainda mais em um festival de cinema, de apreciar esses filmes auto-contemplativos e que não se dão espaço para desenvolvimentos e sentimentos nenhum, porque isso não é culto o bastante. Felizmente, a delícia do filme novo do Robert Rodriguez me lembrou o que há de melhor em se assistir um filme numa sala de cinema: a interação.

Antes de mais nada, não assista esse filme sozinho na tela de seu computador, a menos que não tenha opção. Por ser tão caricato e auto-satírico, boa parte da experiência de intestino delgado sendo usado como corda, membros decepados e padres sendo crucificados na igreja depende dos risos e da animação das pessoas que estiverem perto. E falando em riso, e deixando claro que um filme como Machete é basicamente uma comédia, com um viés ainda mais cômico do que o mostrado em Planeta Terror, uma preocupação que eu mesmo tinha e que deve ser esclarecida é que em momento algum o Rodriguez erra a mão e o filme vira uma paródia escrachada. Pelo contrário, os vários personagens até que tem suas motivações e suas histórias seguem bem definidas até o fim.

Talvez reparando nos poucos defeitos, a sequência final de ação com direito ao Machete voando na moto/metralhadora podia ser um pouco mais inventiva, e o sangue todo, apesar de presente durante o filme inteiro, não vem em uma dose abundante como na primeira parte de Grindhouse, mas são meros detalhes perto do resultado final. Até nossa LiLo, em uma personagem que claramente tira sarro da própria atriz e de seus hábitos tresloucados mantém o interesse até o fim (e ainda paga peitinho).

E aí que quando as luzes se acenderam e a platéia se levantou para bater palma ao subir dos créditos finais, não pude deixar de pensar que mais vale uma tosqueira divertida que une uma sala de desconhecidos do que um alternativismo estático que te faz bocejar. Meu nome é Victor e não tenho medo de ter meu gosto julgado. Primeiro passo é admitir.

(Por Victor Regis)

sábado, 2 de outubro de 2010

Festival do Rio - Monsters

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Tem um certo momento em Monsters que a um tanto quanto cute protagonista pergunta ao seu interesse romântico apocalíptico se ele, como um fotógrafo, não se sente mal ao ter que torcer para uma desgraça acontecer e poder lucrar em cima. Para mim o quote soa consideravelmente irônico quando se nota que este é justamente o primeiro filme que eu vejo no Festival, e o primeiro que critico para O Cine Maníacos. A diferença? Eu não ganho para isso.

"Nossa, quer dizer então que o filme é um desgraça de fazer o pessoal de Apenas O Fim orgulhoso de seu próprio filme?" Não completamente. O filme começa ruim, é verdade, mas melhora surpreendentemente quando a gente esquece que está vendo um suposto filme de terror. Os personagens são carismáticos, e quem entrasse com alguns minutos de atraso juraria estar diante de um road movie indie sobre solidão ou qualquer coisa que o valha.

Interessante, né? Até que passa mais uns 15 minutos e o filme se transforma em Se Beber Não Case. E aí quando você já tá se retorcendo de awckardness na cadeira, e a tentativa de terror começa, é o momento que a receita desanda de vez. Primeiro que 90% dos momentos de tensão são causados por vacas, jegues, grace cariokas , gatos, uma nave subaquática (!) ou qualquer outra coisa que faça barulho ao chegar. Segundo que o suspense é completamente falho. Não que a computação gráfica dos Monstros seja ruim, que, aliás, parecem uma mistura de Cloverfield com polvo gigante de O Nevoeiro. O problema é que não tem sangue, não tem correria, não tem nada.

Agora a pergunta que qualquer pessoa que saiba o plot básico do filme deve estar se fazendo: O quanto Monsters tem de Distrito 9? Muito, mas do lado errado da moeda. Não era preciso nem ter visto o filme pra saber a provável analogia do México sendo uma zona infectada e os dois americanos caucasianos tentando voltar para seu país natal e descobrindo que os monstros talvez sejam o seu próprio povo (sério, nas palavras deles). Agora a diferença é que enquanto o filme dos ETs sul-africanos tinha até que uma mitologia um tanto quanto definida, que justificava a comparação com o apartheid e segregação, em Monsters tudo é muito vazio e não desenvolvido, explicitando o quão sem rumo o projeto como um todo foi.

E aí que quando você chega ao clímax, que eu juro que se resume a dois monstros fazendo pegação, e ao final com o artifício de edição mais pobre e batido da década, você se lembra que pegou uma barca na chuva, perdeu seu celular no táxi, gastou dinheiro pra ver algo aquém do esperado e ainda tem a audácia de estrear o blog falando sobre o mesmo. Isso que eu chamo de pé direito. Se não fosse muito mais fácil falar mal de um filme do que bem, eu poderia até estar um pouco irritado.